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Bananas, macacos e música sobre pênis: como racismo se manifesta no futebol

Rafael Reis

06/10/2019 04h00

Seis dos 11 titulares da seleção francesa na conquista da Copa do Mundo são negros. Pelé, o aclamado maior jogador de todos os tempos, também tem pele escura. E vários dos maiores ídolos da modalidade ao redor do planeta possuem raízes africanas.

Então, o racismo não existe no futebol, certo? Infelizmente, nem toda conclusão racional, baseada em argumentos sólidos e estruturada sobre exemplos reais, corresponde ao que acontece na realidade.

Crédito: Danielle Mascolo/Reuters

O exemplo mais recente de como o preconceito racial é um mal que persiste no esporte mais popular do mundo, aquele que teve várias de suas linhas escritas justamente por pés negros, é o que está acontecendo neste início de temporada na Itália.

Um dos campeonatos nacionais mais importantes do mundo tem visto, rodada após rodada, manifestações de ódio racial nos seus gramados. A partida entre Atalanta e Fiorentina, no final do mês passado, chegou a ser paralisada pela arbitragem devido a ofensas contra o lateral brasileiro Dalbert.

Mas, como que o racismo costuma se manifestar no futebol?

Ao contrário do "mundo real", onde os olhares tortos e a limitação de oportunidades profissionais costumam ser mais frequente do que as ofensas mais explícitas, no cenário futebolístico reinam mesmo os gritos, urros e palavras de ordem contra os negros.

As ofensas mais frequentes vêm das arquibancadas, de torcedores que se aproveitam da sensação de anonimato produzida pela multidão que lota os campos para exercerem o lado mais sujo de suas personalidades.

A imitação dos sons emitidos pelos macacos é um dos tipos mais populares de manifestação racista e, infelizmente, está espalhada por boa parte do mundo. Xingamentos com palavras também acontecem, mas é mais raro que os jogadores no meio do gramado consigam identificá-los.

Uma variação da triste comparação feita por racistas entre negros e macacos é o lançamento de bananas ao campo de jogo. Você provavelmente lembra do dia em que Daniel Alves, então no Barcelona, transformou essa ofensa em um ato de empoderamento ao pegar a fruta que foi lançada contra ele, descascá-la e depois comê-la.

Às vezes, a manifestação racista nem sai de uma torcida adversária, mas sim dos apoiadores do seu próprio time. Assim que chegou ao Manchester United, o atacante belga Romelu Lukaku ganhou uma música que dizia que seu pênis tinha "60 centímetros".

O canto foi denunciado como ofensa racial por reforçar um estereótipo criado para homens negros, e o próprio pediu que ele deixasse de ser entoado em Old Trafford.

O atacante brasileiro Malcom também foi vítima de "fogo amigo". Em agosto, logo em sua primeira partida pelo Zenit, o ex-Corinthians viu uma faixa que criticava a diretoria por ter contratado um jogador negro para defender o clube russo.

Mas a torcida não é a única agente de preconceito no futebol. Vez ou outra, o racismo vai para dentro de campo e aparece como ofensa de um jogador contra outro.

Em 2005, o zagueiro argentino Leandro Desábato, do Velez Sarsfield, deixou o Morumbi na companhia da polícia e ficou 43 horas preso por chamar o atacante Grafite, então no São Paulo, de "macaco" e "negro de merda", durante um jogo da Libertadores.

O atacante uruguaio Luis Suárez, hoje no Barcelona, também já foi acusado de praticar atos racistas. Em 2011, durante clássico contra o Manchester United, o então jogador do Liverpool discutiu com o lateral francês Patrice Evra e usou a palavra negro para ofendê-lo.

Mais tarde, Luisito declarou que houve uma confusão de idiomas durante a briga e que não teve um ato racista –o lateral, porém, insiste até hoje que sofreu preconceito racial.


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Sobre o Autor

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

Sobre o Blog

Este espaço conta as histórias dos jogadores que fazem do futebol uma paixão mundial. Não só dos grandes astros, mas também dos operários normalmente desconhecidos pelo público.


Rafael Reis