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Ex-seleção alemã trocou futebol pelo Estado Islâmico e morreu terrorista
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Rafael Reis

Em meados da década passada, Burak Karan era uma das grandes apostas para o futuro do futebol alemão. O volante e zagueiro de Bayer Leverkusen, Hertha Berlin, Hamburgo e Hannover parecia que teria uma carreira brilhante como profissional.

Mas ele não teve o mesmo destino de Sami Khedira (Juventus) e Kevin Prince-Boateng (ex-Milan e atualmente no Eintracht Frankfurt), seus companheiros nas seleções germânicas sub-15 e sub-16.

A história de Karan terminou bem distante dos gramados. Cinco anos atrás, ele morreu durante um ataque aéreo a um campo de terroristas em Azaz, cidade na fronteira da Síria com a Turquia.

O ex-jogador da seleção alemã não estava lá por acaso. Desde 2008, ele estava conectado a grupos terroristas. E, quando foi morto, militava nas fileiras do Estado Islâmico.

“Quando ouvi o que havia acontecido com Burak, foi como se eu tivesse recebido uma pancada. Isso é algo que nos faz pensar duas vezes sobre o que pode acontecer com um jovem atleta. Sim, ele pode se tornar uma grande estrela, mas sua vida também pode tomar um rumo completamente diferente. Mesmo como treinador, é impossível você enxergar a alma das pessoas”, afirmou o técnico Thomas Hengen, ao jornal britânico “Guardian”, logo após a morte de Karan.

Hengen foi o último técnico do jogador que se tornou terrorista. No primeiro semestre de 2008, quando tinha 20 anos e transitava entre as categorias de base e a equipe profissional do Alemania Aachen resolveu radicalizar e mudar de vida.

Incomodado com o que estava acontecendo no Oriente Médio e amigo de integrantes de movimentos islâmicos radicais, decidiu abandonar a carreira no futebol. Mais tarde, pegou sua esposa e dois filhos e partiu para a Síria.

A intenção, segundo relatou seu irmão Mustafá ao jornal alemão “Bild”, não era se unir a grupos terroristas e fazer a “jihad” (guerra santa contra infiéis e inimigos do Islã), mas apenas ajudar na coleta e distribuição de donativos para refugiados de guerra.

“Burak me disse que dinheiro e sua carreira não eram coisas importantes. Ele se transformou e começou a assistir a muitos vídeos na internet sobre zonas de guerra. Burak considerava muito injusta a forma como as pessoas que vivem nesses lugares morriam. Um dia, deixou para trás e foi embora”, relatou.

A última imagem de Karan surgiu no YouTube poucos dias após a sua morte, em outubro de 2013. No vídeo, o ex-jogador aparecia usando um turbante na cabeça, com um fuzil em punhos.


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Com time de refugiados, Síria busca vaga inédita na Copa para aliviar dor
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Rafael Reis

Omar Kharbin era uma das maiores promessas do futebol da Síria quando a guerra eclodiu. Com medo do que lhe aguardava, aceitou a primeira oferta do exterior que recebeu e hoje é um dos destaques do Al-Hilal, atual campeão da Arábia Saudita.

Omar Al Somah, artilheiro das três últimas temporadas sauditas pelo Al-Ahli, teve uma trajetória semelhante. Assim que viu seu país ser tomado pelos conflitos, fez as malas e migrou para o Kuwait. Três anos depois, chegou à terra onde hoje é ídolo.

Hamid Mido é de Aleppo, cidade central na guerra pelo controle da Síria e que foi tomada posteriormente pelo Estado Islâmico. O meia viveu lá até 2013, quando uma proposta para jogar no Iraque e decidiu cruzar a fronteira com a família.

É com histórias como essas, marcadas por sangue, lágrimas e despedidas, que a Síria sonha se transformar na maior e mais impressionante surpresa das eliminatórias da Copa.

O país chegou à última rodada com chances reais de se classificar pela primeira vez para um Mundial. Para conseguir a vaga sem passar pela repescagem, precisa vencer o Irã, fora de casa, nesta terça-feira, e torcer para que a Coreia do Sul não derrote o Uzbequistão, como visitante.

Tarefa difícil? Muito menos do que sobreviver a um conflito que já matou mais de 470 mil pessoas.

A Síria está em guerra civil desde 2011, quando grupos contrários ao presidente Bashar al-Assad começaram a entrar em conflito armado com o governo nacional. Some-se a isso o fortalecimento do grupo terrorista Estado Islâmico e temos uma das maiores crises humanitárias da história recente do planeta.

De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), pelo menos cinco milhões de pessoas fugiram da Síria rumo a países vizinhos e à Europa desde a eclosão do conflito. Entre esses refugiados, estão 16 dos 27 jogadores convocados para a decisiva partida contra o Irã.

Boa parte da equipe comandada por Ayman Hakeem deixou sua terra natal por medo de morrer e para continuar exercendo normalmente sua atividade profissional: o futebol.

Apesar de o Campeonato Sírio estar sendo disputado normalmente desde o início da temporada 2011/12, a competição perdeu muito do seu poderio financeiro e hoje é realizada apenas nas regiões controladas pelo governo de Al-Assad. Onde há rebeldes ou terroristas, a bola não rola… pelo menos, não profissionalmente.

Nem mesmo a seleção pode jogar dentro de casa. A surpreendente e histórica campanha síria nas eliminatórias da Copa-2018 foi toda construída mandando jogos na Malásia, a 7.290 km do seu território.

Além disso, o time que busca a classificação inédita para o Mundial está longe de ter força máxima. Afinal, quem fala mal do presidente e faz campanhas para os rebeldes normalmente não têm o direito de ser convocado.

Afinal, o futebol é um instrumento importante de propaganda do governo. E também dos rebeldes. O atacante Mahmoud al-Jawabra, por exemplo, foi morto por forças de Al-Assad e virou herói da resistência. Clubes do interior também ajudaram a espalhar os ideais revolucionários.

É em meio a esse cenário incerto e repleto de sofrimento que a Síria sonha. Sonha com dias de paz, anos de tranquilidade e também com a Copa do Mundo. De preferência, a de 2018.


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Bombas e lei do silêncio: conheça o brasileiro que jogou na Síria em guerra
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Rafael Reis

“A gente ouvia bombas estourando, via caças sobrevoando por cima da nossas cabeças e policiais andando com metralhadoras.”

O volante brasileiro Gilson Tussi viu de perto o início da guerra civil na Síria que espalhou milhões de refugiados pela Europa, criou uma crise humanitária nas fronteiras do Velho Continente e contribuiu para o fortalecimento do grupo terrorista Estado Islâmico.

Entre dezembro de 2011 e o fim de 2013, o jogador paranaense atuou pelo Al Shorta, time controlado pela polícia síria.

E, mesmo morando na capital Damasco, longe do epicentro dos conflitos entre as forças do presidente Bashar al-Assad e grupos rebeldes que tentam demovê-lo do cargo, viveu a aflição de estar em um país em guerra.

Gilson

“Lógico que era estranho, mas não acontecia nada perto de mim. Só que minha esposa estava no Brasil e via tudo pela TV. Mas só quem está lá dentro sabia o que estava acontecendo”, contou o volante.

“Um dia, ela disse que tinha ouvido que o Obama [presidente dos EUA] ia invadir e bombardear a Síria. Eu tive que explicar para ela que não era bem assim para acalmá-la um pouco”, lembrou.

Além da pressão familiar para que voltasse ao Brasil, Gilson sentiu o agravamento da guerra civil ir, aos poucos, dificultando sua permanência na Síria.

No primeiro campeonato nacional que disputou, vencido pelo Al Shorta, cada clube podia atuar em seu próprio estádio. Já na segunda edição, só Damasco era um local seguro e todas as partidas foram realizadas na capital.

Para completar, o Campeonato Sírio proibiu a escalação de jogadores estrangeiros para não prejudicar os clubes que haviam tido as finanças prejudicadas pela guerra. Com isso, Gilson não teve seu contrato renovado e voltou ao Brasil.

Com contrato assinado para disputar o Campeonato Piauiense pelo River, o volante ainda mantém contato com antigos companheiros de time. Só que a guerra e as indefinições políticas da Síria são assuntos proibidos.

“Converso com alguns jogadores, mas eles não falam nada porque lá tudo é rastreado. Se começo a falar sobre isso, eles já pedem rápido para mudar de assunto.”

E se surgisse uma proposta para voltar a jogar na Síria, o que Gilson faria? Nem ele sabe.

“Tenho medo. Pra voltar, tenho medo. Hoje, tem essa situação do Estado Islâmico, que não era muito forte na minha época. Mas tem a questão financeira, eles pagam muito bem. Para falar a verdade, não sei.”


Filósofo, jogador do Barça vai passar Natal em campo de refugiados
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Rafael Reis

Um jogador do Barcelona vai passar o Natal deste ano de um jeito bem diferente, em um campo de refugiados de guerra, praticando uma ação humanitária.

De acordo com o jornal “Mundo Deportivo”, o meia macedônio David Babunski, 21, que atua na equipe B do clube catalão, ficará entre os dias 22 e 26 de dezembro em uma base do trajeto que milhares de refugiados têm percorrido para entrar na Europa.

A cidade escolhida foi Gevgelija, na fronteira da Macedônia com a Grécia, de onde partem cinco trens diários com capacidade para 700 pessoas em direção à Sérvia.

Babunski

Os arredores dessa estação se tornaram um verdadeiro de campo de refugiados, a maioria de origem síria, que escaparam da Ásia em virtude da guerra civil no seu país e do crescimento do Estado Islâmico.

Babunski irá viajar ao acampamento junto com seu irmão, Dorian, que também é jogador de futebol e defende o Fuenlabarada, da terceira divisão espanhola, e mais quatro amigos.

Além de doação de água e comida para os refugiados, o grupo também pretende organizar brincadeiras e partidas de futebol no campo para distrair os adultos e, sobretudo, as muitas crianças (algumas órfãs) que se acumulam no acampamento.

O jogador até organizará na próxima semana um fórum dentro do Camp Nou, estádio do Barcelona, para discutir o problema dos refugiados de guerra na Europa e arrecadar doações para o campo de Gevgelija.

Filho de um ex-zagueiro da seleção, Babunski é uma figura incomum no meio do futebol. Suas postagens em redes sociais falam muito mais de filosofia e problemas do mundo contemporâneo que de esporte.

Apelidado de “filósofo”, ele é criador e maior incentivados de uma plataforma online gratuita de conhecimento chamada Skyself. Nela, é possível encontrar artigos sobre ciência e espiritualidade, tecnologia, saúde holística, ecologia, sociedade e um ou outro sobre esporte.

No Barcelona desde 2006, o meia passou por todas as categorias de base de La Masia e já treinou com a equipe principal, apesar de ainda no time de cima.

Atualmente, ele joga a terceira divisão espanhola, pelo Barça B, atua na seleção da Macedônia, produz textos de filosofia e realiza projetos humanitários.

Conheça um pouco da obra de Babunski:

“Todos somos feitos de uma mesma essência. Acredito que isso seja indiscutível. Uma essência incomensuravelmente maravilhosa, divisa, ilimitadamente poderosa. Que nos engloba e conecta a todos nós, mas com a qual, infelizmente, quase ninguém se identifica.”


Dahoud e Jaddou: como a Síria perdeu suas maiores promessas para a guerra
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Rafael Reis

Mahmoud Dahoud tinha apenas dez meses quando sua família, preocupada com o futuro e com medo da guerra, decidiu fugir na Síria e se refugiar na Alemanha.

Dezenove anos depois, o meia do Borussia Mönchengladbach é uma das principais revelações da temporada 2015/16 da Bundesliga, já acumula jogos como titular na Liga dos Campeões e defende a equipe sub-20 da Alemanha.

O caso de Dahoud não é o único. Duas décadas depois da fuga da família do meia para o exterior, a Síria está novamente em guerra.

Dahoud

Graças ao conflito entre as forças do presidente Bashar al-Assad e de seus opositores e ao crescimento do grupo terrorista Estado Islâmico dentro do seu território, o país virou um produtor de refugiados de guerra.

Só nos últimos quatro anos, estima-se que mais de 4 milhões de sírios foram para o exterior em busca de um recomeço. O número tende a aumentar com o fortalecimento dos bombardeios feitos por França e Rússia contra bases do Estados Islâmico.

Mohammed Jaddou, 17, é um desses milhões de refugiados. Considerado um dos melhores jogadores de sua idade no continente asiático e capitão da seleção síria na inédita classificação para o Mundial sub-17 deste ano, ele decidiu nem disputar a competição no Chile.

Antes mesmo do Mundial, a melhor vitrine que poderia ter para sua carreira, ele achou que era hora de abandonar sua terra-natal. A razão foi uma só: sobrevivência. A decisão foi tomada depois da morte do seu melhor amigo e companheiro de quarto por um morteiro.

“Quando saíamos do nosso campo de treinamento, éramos ameaçados pela morte, corríamos risco de ser acertado por um tiro ou por um míssil. Nosso campo foi bombardeado algumas vezes”, disse, ao “New York Times”.

Assim como Dahoud, Jaddou encontrou abrigo na Alemanha. Atualmente, ele treina no F. V. Ravensburg, que disputa o equivalente à quinta divisão local. A transferência para um clube maior é apenas uma mera questão de tempo.

Sem sua principal promessa, a Síria fez péssima campanha no Mundial sub-17. A equipe asiática foi eliminada na primeira fase, depois de duas goleadas e um empate com a Nova Zelândia.

Dahoud e Jaddou: dois exemplos de talentos que a Síria perdeu para a guerra e o terrorismo. E eles não são os únicos.


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