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Futebol só finge que não tolera o racismo, mas adora um preconceito

Rafael Reis

15/11/2019 04h20

Em jogos de competições oficiais da Fifa, os capitães das duas equipes entram em campo carregando flâmulas com mensagens em prol da diversidade racial. Algo semelhante costuma acontecer em torneios chancelados pela Uefa e, eventualmente, nas principais ligas nacionais do planeta.

Os torcedores mais desavisados que veem essas cenas se repetirem partida após partida até podem acreditar que as mentes que comandam o futebol têm no combate ao racismo uma de suas prioridades.

Crédito: Oleksandr Osipov/Reuters

Ledo engano. Para a maioria as entidades que gerenciam a modalidade, estimular a tolerância racial não é nada mais que uma estratégia de marketing, uma forma de mostrar para a opinião pública (e, principalmente, para os patrocinadores) que não está de "braços cruzados" frente às mazelas que surgem nos gramados do planeta.

Mas, a verdade é que o mecanismo do futebol não está nem aí para o racismo ou para qualquer outra demonstração de ódio motivada por gênero, orientação sexual, religião e afins. Arrisco-me até a dizer que lá no fundo, bem lá no fundo, ele vai além e até adora um preconceito.

Se não fosse assim, por que as situações de racismo, homofobia e machismo são muito mais frequentes e normalmente bem mais pesadas nos estádios do que no cotidiano da vida real (talvez apenas excluindo o faroeste das redes sociais)?

Você já viu alguém cruzar com um desconhecido e, do nada, chamá-lo de "macaco" só porque ele é negro? Possivelmente não. Mas isso tem acontecido direto nos gramados dos mais diversos campeonatos europeus (e também no Brasil).

O mesmo vale para homofobia. Há anos não vejo alguém na rua gritando "bicha" pejorativamente e a pleno nos pulmões no meio da rua ao avistar alguém que pode (ou não) ser homossexual. Mas, nos estádios sul-americanos, soltar essa ofensa rumo ao goleiro adversário no momento do tiro de meta é uma mania bem alastrada.

É claro que essas cenas acontecem mais no futebol do que longe dele também por causa do "efeito manada" e pela sensação de anonimato (e invulnerabilidade) que estar no meio de uma multidão provoca.

Mas se as punições aos agressores e também aos clubes/seleções envolvidos em cada caso de preconceito fossem mais severas, esse triste cenário certamente melhoraria pelo menos um pouco.

O futebol é tão permissivo à discriminação que mesmo alguns dispositivos de combate ao preconceito permitidos pela Fifa não são utilizados. Desde julho, os árbitros têm poder para suspender partidas que estejam sendo maculadas pelo racismo.

Mas, os juízes simplesmente não têm coragem de aplicar essa pena. E olha que, infelizmente, oportunidades para isso não estão faltando.

No mês passado, a partida entre Bulgária e Inglaterra, pelas eliminatórias da Euro-2020, foi paralisada duas vezes por conta de ofensas raciais. No terceiro momento de discriminação, quando o jogo poderia ser prematuramente encerrado, o árbitro preferiu ir até o alambrado para "negociar" com os torcedores.

Os insultos praticados pelos torcedores renderam à seleção búlgara apenas uma multa de 75 mil euros (R$ 343 mil) e a punição de ter de disputar uma partida com os portões fechados.

Já no último fim de semana, dois jogadores brasileiros, Taison e Dentinho, ambos do Shakhtar Donetsk foram vítimas de racismo durante o clássico contra o Dínamo de Kiev, pelo Campeonato Ucraniano.

Mas, apesar do episódio claro de discriminação, a pena mais forte aplicada foi o cartão vermelho recebido por Taison por ter respondido às ofensas mostrando o dedo do meio para torcedores adversários.

Com tudo isso, você ainda acredita que o futebol está realmente combatendo o racismo?


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Sobre o Autor

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

Sobre o Blog

Este espaço conta as histórias dos jogadores que fazem do futebol uma paixão mundial. Não só dos grandes astros, mas também dos operários normalmente desconhecidos pelo público.

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