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Rafael Reis

Alvo de racismo, cearense deve ser 1º negro da história da seleção russa

Rafael Reis

14/11/2018 04h00

Em 2012, Ari viu e ouviu torcedores do Dínamo Moscou imitando macacos na arquibancada para ofendê-lo e tentar intimidá-lo após ele marcar pelo Spartak em um dos clássicos da capital russa.

Seis anos depois, o atacante cearense de 32 anos pode se tornar nos próximos dias o primeiro jogador negro a atuar pela seleção principal da Rússia.

Após o corte por lesão do capitão Artem Dzyuba, o atacante do Krasnodar foi convocado pelo técnico Stanislav Cherchesov para o amistoso contra a Alemanha, na quinta-feira, e para o jogo contra a Suécia, válido pela Liga das Nações, no dia 20.

Caso Ari seja utilizado em alguma dessas partidas, ele colocará a Rússia no grupo de seleções europeias, todas de países de população majoritariamente branca, a utilizarem jogadores de origem negra.

As principais potências do Velho Continente já romperam há tempos esse tabu. A atual campeã, França, e Portugal, por exemplo, escalaram seus primeiros atletas de pele escura ainda na década de 1930.

No caso russo, a diferença é que o racismo ainda é parte recorrente da cultura do futebol local. Jogadores importantes que passaram por lá nos últimos anos, como Roberto Carlos e Hulk, foram alvos de comportamento discriminatórios.

Com Ari, não foi diferente. "Lembro que estava muito frio. Quando saiu o gol, eles começaram a fazer gesto de macaco e fizeram algumas bolinhas de neve e começaram a jogar na minha direção. Peguei rapidamente algumas bolas de neve e comemorei com meus companheiros. Já estava tão adaptado que sabia que isso era normal, não que eu concorde, mas eu nem liguei", disse ao UOL Esporte, no meio do ano.

O atacante começou a carreira em seu estado natal, mas praticamente não jogou ao Brasil. Promovido ao time principal do Fortaleza em 2005, foi negociado com o Kalmar, da Suécia, no ano seguinte.

Ari também jogou por três temporadas na Holanda (AZ Alkmaar) antes de desembarcar na Rússia, país que mudou sua carreira. O cearense foi vice-campeão nacional com o Spartak, chegou à final da Copa da Rússia pelo Krasnodar e faturou a primeira divisão pelo Lokomotiv Moscou.

O atacante viveu a expectativa de ser lembrado para disputar a Copa do Mundo. Mas, como seu processo de naturalização atrasou, a primeira convocação só veio agora, quatro meses depois do encerramento da competição.

Além de Ari, outros dois brasileiros costumam integrar as convocações da Rússia. O goleiro Guilherme (ex-Atlético-PR e hoje no Lokomotiv Moscou) foi chamado para a Data Fifa de novembro e o lateral direito Mário Fernandes (ex-Grêmio e atualmente no CSKA Moscou), que disputou a Copa, ficou fora por lesão.

Mas, assim como todos os outros jogadores da história da seleção russa, nenhum dos dois é negro. Afinal, cabe ao atacante que foi alvo de racismo há seis anos fazer história na luta contra a intolerância.

1º JOGADOR NEGRO DA HISTÓRIA DAS SELEÇÕES EUROPEIAS:

ALEMANHA – Erwin Kostedde (22/12/1974, contra Malta)
BÉLGICA – Dimitri Mbuyu (04/02/1987, contra Portugal)
ESPANHA – Donato (16/11/1994, contra Dinamarca)
FRANÇA – Raoul Diagne (15/02/1931, contra Tchecoslováquia)
HOLANDA – Humphrey Mijnals (03/04/1960, contra Bulgária)
INGLATERRA – Viv Anderson (29/11/1978, contra Tchecoslováquia)
ITÁLIA – Fabio LIverani (25/04/2001, contra África do Sul)
PORTUGAL – Guilherme Espírito Santo (28/11/1937, contra Espanha)


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Sobre o Autor

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

Sobre o Blog

Este espaço conta as histórias dos jogadores que fazem do futebol uma paixão mundial. Não só dos grandes astros, mas também dos operários normalmente desconhecidos pelo público.