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Vinte anos depois, há gente que jura que o Brasil "vendeu" a Copa-1998

Rafael Reis

12/04/2018 04h00

"É muito difícil provar alguma coisa. Mas, sempre que apresento meus argumentos para os amigos, eles concluem que minha hipótese não é totalmente descabida."

Vinte anos depois da Copa do Mundo-1998, o bancário carioca José Henrique da Rocha, de 49 anos, jura de pés juntos que a derrota por 3 a 0 sofrida pela seleção brasileira contra a França, na decisão do torneio, pouco teve a ver com questões esportivas.

Para ele e para vários outros torcedores chegados em uma "teoria da conspiração", o resultado da decisão foi selado nos bastidores. A crença deles é que o Brasil "vendeu" o título mundial de 1998.

"Pelo futebol que o Brasil vinha apresentando até a final, não dá para pensar em outra coisa. A França era o país-sede, e conquistar o título era muito importante para a autoestima dela. Além do placar, teve muita coisa estranha naquele jogo. Falaram que o Ronaldo passou mal, que o Dunga reclamou que o Edmundo tinha de jogar", explica o guia turístico Ezequiel Amâncio Júnior, de Londrina (PR).

"O boato mais forte é que o Brasil tinha de perder aquela final para ganhar em 2002, o que realmente aconteceu", completa.

A versão de que a seleção perdeu propositalmente a decisão da Copa-1998 para a França foi uma espécie de febre popular no Brasil no final da década passada e chegou até a ser analisada por uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara dos Deputados, em Brasília.

A história ganhou força depois que um e-mail assinado por Gunther Schweitzer, um suposto jornalista que trabalhava para a Globo, relatando os detalhes do acordo da manipulação de resultado na final, viralizou pelo país.

Gunther, na verdade, é professor de educação física e sempre negou a autoria do "documento". Segundo o "denunciante", ele apenas passou adiante um e-mail que havia recebido de conhecidos e que, por engano, ganhou sua assinatura.

Mas a negativa do homem que popularizou a expressão "Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enjoadas" não foi suficiente para convencer o cobrador Elton Bonfim Pereira, 22, de Curitiba (PR).

"Eu era criança na primeira vez que ouvi falar em manipulação na Copa-1998. Mas passei a levar a sério depois que li um livro chamado 'O Lado Sujo do Futebol' (dos jornalistas Amaury Ribeiro Jr., Luiz Carlos Azenha e Tony Chastinet). Lá não fala nada dessa questão, mas mostra o tamanho da influência que a Nike tinha nos amistosos e no calendário do Brasil. Então, é difícil não acreditar que houve fraude."

O episódio mais citado pelos conspiracionistas como indício de uma possível fraude na decisão do Mundial é o mal-estar sofrido por Ronaldo. Antes da final, Ronaldo sofreu uma convulsão e deixou a concentração da seleção para fazer uma bateria de exames. Horas mais tarde, foi ao Stade de France e, mesmo debilitado, acabou escalado por Zagallo.

"Tudo naquela final causa muita estranheza, mas o caso Ronaldo é o mais estranho de todos", afirma o auxiliar de escritório Uriel de Mello, 20, de Cascavel (PR).

Apesar de acreditar que a decisão da Copa-1998 foi fraudada, Uriel não vê a hora de o próximo Mundial chegar. É que, na sua opinião, a corrupção no torneio mais importante do futebol está mais para algo isolado do que para um sistema que é novamente acionado a cada quatro anos.

"Não perdi o sentimento em relação à Copa do Mundo. A existência de fraudes depende de muitas circunstâncias, como o país-sede e o que está acontecendo. Em 2002, foi estranho a Coreia do Sul chegar às semifinais. Desta vez, vai ser esquisito se a Rússia fizer uma grande campanha. Vou torcer normalmente. Mas de olho aberto para ver se não vai ter nenhuma canetada".

Ao longo dos últimos 20 anos, a CBF e vários jogadores que fizeram parte da seleção vice-campeã mundial de 1998 foram questionados inúmeras vezes sobre uma possível manipulação de resultado da final da Copa. Todos os envolvidos sempre negaram a acusação.


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Sobre o Autor

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

Sobre o Blog

Este espaço conta as histórias dos jogadores que fazem do futebol uma paixão mundial. Não só dos grandes astros, mas também dos operários normalmente desconhecidos pelo público.


Rafael Reis