Blog do Rafael Reis

Com “muro” na defesa, futebol da Copa do Mundo parece até handebol

Rafael Reis

O time que está na defesa posiciona seus jogadores em linha, na entrada de sua área, para proteger aquele terreno de qualquer invasor. A equipe no ataque troca passes de um lado para o outro na tentativa de encontrar uma brecha que permita a infiltração e, consequentemente, o tiro ao gol.

A cena acima descreve a movimentação tática mais tradicional das partidas de handebol. Um tipo de desenho se tornou frequente também nas partidas da Copa do Mundo… de futebol.

Pare para pensar: quantas vezes neste Mundial você já viu uma seleção fazendo a bola girar de uma lateral à outra, nas proximidades da área adversária, diante de uma defesa completamente montada, com oito, nove ou até mesmo dez jogadores postados praticamente em linha?

Esse é o ápice da compactação, um dos conceitos da moda no futebol, que prega que as três linhas de um time (defesa, meio-campo e ataque) devem estar o mais próximo possível. Em alguns momentos, como na tática de handebol, elas chegam até a se fundir.

O “muro” formado por jogadores na entrada da área costuma ser usado por quem deseja manter o placar, equipes que já estão em vantagem no marcador ou que sabem que são tecnicamente inferiores.

A ideia é uma espécie de retranca inteligente, já que dá à equipe defensora vantagem numérica de atletas na região do campo que, para ela, realmente importa. Conforme a bola vai se movimentando, a linha defensiva também de mexe, da direita para esquerda ou da esquerda para direita.

O conceito não chega a ser inédito. Em 2010, José Mourinho conseguiu neutralizar o tiki-taka do Barcelona, de Pep Guardiola, e levar Inter de Milão ao título da Liga dos Campeões da Europa jogando exatamente dessa forma.

Na equipe italiana, os atacantes que jogavam pelo lado do campo voltavam até a área defensiva e formavam as duas pontas do “muro” (ou ônibus, como se chamava na época).

Os laterais vinham logo na sequência, seguidos pelos meias, pelos zagueiros e pelo volante. O centroavante Diego Milito era o único que ficava fora dessa linha e não se comportava como um jogador de handebol.

Ao longo dos últimos oito anos, esse tipo de marcação foi ganhando força no futebol europeu. Hoje em dia, é comum ver equipes atuando assim na Premier League inglesa, na Serie A italiana ou na liga espanhola.

Mas, na Copa do Mundo, o desenho de handebol virou febre. Em geral, o que se vê até o momento na Rússia-2018 são os times mais fracos bloqueando a entrada da área a todo custo e abdicando até mesmo dos contra-ataques.

O uso excessivo dessa estratégia ajuda a explicar a escassez de gols da competição. Dos 16 jogos da primeira rodada, seis tiveram apenas uma bola na rede. Quatro anos atrás, houve apenas um 1 a 0 e outro 0 a 0 na rodada inaugural.

Com dificuldade para se infiltrar em uma defesa que está o tempo todo armada na entrada da área, restam aos times que estão no ataque (principalmente aqueles que não possuem uma técnica tão elevada) apelar ao chuveirinho e às jogadas de bola parada.

É por isso que estamos assistindo a um festival de gols de cabeça na Copa. É a opção que resta para vencer a linha de handebol que tomou conta do futebol.


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