Blog do Rafael Reis

O dia em que um príncipe invadiu campo para anular gol na Copa do Mundo

Rafael Reis

Imagine a seguinte cena: o príncipe de um país do Oriente Médio se revolta com a decisão da arbitragem, deixa as tribunas onde estava acomodado, invade o gramado ao lado dos seus guarda-costas pessoais, pressiona o juiz a voltar atrás e consegue o que desejava.

O episódio descrito acima não aconteceu em um torneio amador e nem nas divisões inferiores de algum pequeno país do Mundo Árabe. O palco dessa cena pitoresca foi a competição de futebol mais importante do planeta.

Em 1982, o xeque Fahd Al-Ahmed Al-Jaber Al-Sabah, irmão do então emir do Kuwait, conseguiu paralisar uma partida de Copa do Mundo. E impôs sua posição sobre a do trio da arbitragem.

A cena aconteceu na partida entre França e Kuwait, em Valladolid (Espanha), pela segunda rodada da fase de grupos.

Os europeus já venciam por 3 a 1 quando, aos 27 min do segundo tempo, Giresse marcou mais um. O lance provocou a revolta dos jogadores árabes, que alegaram que o adversário estava impedido e que haviam escutado um apito.

O xeque Fahd, que também era o presidente da federação local de futebol, levou a reclamação a sério. Tão a sério que decidiu ir até o campo para conversar pessoalmente com o árbitro Miroslav Stupar, da União Soviética.

O kuwaitiano argumentou que os jogadores de sua seleção desistiram da jogada do gol de Giresse depois de ouvir um apito, talvez até vindo das arquibancadas, por acreditarem que o juiz estava marcando impedimento.

A lábia de Fahd convenceu Stupar, que voltou atrás e anulou o quarto gol francês. Foi só depois dessa decisão que os jogadores do Kuwait, que haviam deixado o gramado durante a confusão, retornaram para o campo.

Os franceses ainda tiveram tempo para balançar as redes mais uma vez e venceram por 4 a 1.

Já o Kuwait, que era treinado pelo brasileiro Carlos Alberto Parreira, despediu-se da Copa-1982 com duas derrotas (França e Inglaterra) e um empate (Tchecoslováquia). Desde então, o time do Oriente Médio jamais voltou a se classificar para a competição.

Posteriormente, tanto o xeque Fahd quando o árbitro Stupar acabaram suspensos pela Fifa.

O juiz continuou trabalhando no Campeonato Soviético até 1991, quando decidiu se aposentar. Já o príncipe kuwaitiano morreu em 1990, no início da Guerra do Golfo, por forças iraquianas que invadiram seu país.


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